★ Historia

Livro resgata a Segunda Academia do Palmeiras e seu futebol de outra era

Obra de Matheus Trunk revive geração de Ademir da Guia e os títulos do Ramón de Carranza, vitrine europeia do Palmeiras nos anos 1970.

Livro resgata a Segunda Academia do Palmeiras e seu futebol de outra era

Um novo livro resgata um dos capítulos mais gloriosos da história do Palmeiras. “Fragmentos de um Sonho – A Segunda Academia do Palmeiras e o Torneio Ramón de Carranza”, do jornalista Matheus Trunk, lançado em 2026 pela editora Letras do Brasil, revisita a geração comandada por Oswaldo Brandão no início dos anos 1970. Em entrevista à Gazeta Esportiva, o autor detalhou o que tornou aquele time tão especial e por que ele representa um futebol que já não existe.

A escalação que ficou marcada na memória palmeirense tinha Leão no gol; Eurico, Luís Pereira, Alfredo Mostarda e Zeca na defesa; Dudu e Ademir da Guia no meio; e Edu, Leivinha, César e Nei no ataque. Sob o comando de Brandão, o Palmeiras foi campeão paulista invicto e campeão brasileiro em 1972, repetiu o título nacional em 1973 e conquistou novamente o Paulista e o torneio Ramón de Carranza em 1974.

Identificação que se perdeu com o tempo

Segundo Trunk, um dos traços mais marcantes daquela equipe era a permanência prolongada dos jogadores no clube, algo raro no futebol atual. De acordo com o autor, essa longevidade criava um vínculo afetivo que ia muito além do aspecto profissional.

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“Isso com certeza denota uma identificação maior com o clube”, disse Trunk à Gazeta Esportiva. “É um atleta que fica muito tempo numa equipe, que é criado lá dentro. Ele tem um carinho, uma identificação com aquele clube, com aquelas cores.”

Ademir da Guia é citado pelo jornalista como o maior símbolo dessa relação, já que o ídolo palmeirense passou praticamente toda a carreira no clube. Para Trunk, a ausência de patrocínios nas camisas da época reforçava esse laço mais puro entre atleta e instituição.

“Até porque a camisa só tinha as cores do clube, não tinha patrocinador, não tinha nada. Então, realmente, era outra coisa”, afirmou o autor à Gazeta Esportiva.

Entrosamento e camaradagem no vestiário

O tempo prolongado jogando juntos, segundo o jornalista, gerou um entendimento tático raro, em que cada jogador sabia exatamente como o companheiro se movimentaria em campo. Trunk também destacou a ausência de disputas internas por protagonismo dentro daquele grupo.

“Era uma equipe tecnicamente muito forte, que atuou junta durante muito tempo”, disse Trunk. “Todos sabiam muito bem a sua função e, por jogar juntos muito tempo, cada um sabia o problema do outro.”

Sobre o clima interno do elenco, o autor foi direto ao descrever a relação entre os jogadores daquela geração.

“Eu acho que não existia uma concorrência entre eles. Pelo que eu senti, existia um clima muito de camaradagem. Lógico que às vezes tem um conflito ou outro, mas eu acho que era uma coisa menor”, afirmou Trunk.

A vitrine europeia do Ramón de Carranza

O livro também resgata o contexto internacional da época: o Brasil havia conquistado o tricampeonato mundial em 1970, com Pelé como principal referência, e o Palmeiras figurava entre as grandes forças do futebol nacional. Essa força se refletiu na participação do clube no torneio Ramón de Carranza, disputado em Cádis, na Espanha, desde 1955.

De acordo com informações do livro, o Palmeiras é o clube brasileiro que mais vezes disputou a competição, com participações em 1969, 1974, 1975, 1976, 1981 e 1993, e divide com o Vasco o posto de maior campeão do torneio, com três títulos cada. Na edição de 1974, o Palmeiras enfrentou o Barcelona de Johan Cruyff, e Trunk explicou o significado daquelas partidas para o futebol brasileiro da época.

“O Ramón de Carranza representava um reconhecimento internacional, de qualquer maneira, porque você jogava contra grandes times. O Palmeiras jogou contra o Barcelona do Cruyff, jogou contra o Real Madrid do Netzer”, contou o autor à Gazeta Esportiva.

A Segunda Academia conquistou o torneio espanhol em 1974 e 1975, consolidando o prestígio internacional daquela geração que, mais de cinco décadas depois, continua sendo lembrada como uma das mais importantes da história do Palmeiras.

Sobre o autor
Carla Menezes

Especialista em transferências e no dia a dia do elenco na Academia.